Apogeu do claro-escuro… e A casa tomada… Notas da pré-história

Alguns privilégios a gente acaba sempre tendo na vida. Entre eles, acariciamos o de ter testemunhado algo da imaginação criadora de um grande artista – Luiz Henrique Schwanke.

Luiz entrou na nossa vida ali pela dobradiça das décadas de 70 e 80, pelas mãos de um amigo comum. Uma simpatia mútua permitiu que mantivéssemos contato durante o tempo em que eles viveram em Curitiba. Depois, perdemos contato, mas conservamos o poder de reanimar lembranças alegres dos tempos em que convivíamos com alguma assiduidade. Queremos falar de algumas de tais lembranças.

Uma noite, vínhamos de carro, não sei de onde, e passamos pela rua onde hoje está o Shopping Mueller, em Curitiba. Naquele então, a quadra inteira estava ocupada pelas ruínas da antiga Fundição Mueller, já desativada e, para nossa tristeza, demolida. Era um belo prédio e sua demolição fora melancólica, para nós. Não para ele, que via ali o cenário ideal para uma instalação luminosa.

Declarou em voz alta seu desejo de fazer funcionar, bem no centro da quadra, escondido em meio ao entulho, um dispositivo capaz de emitir raios luminosos, intensos e fugazes como relâmpagos, que assombrassem os eventuais passantes. Meu marido lhe disse que, àquele tempo, um arco voltaico intermitente seria o dispositivo capaz de produzir tais efeitos. Luiz ficou muito interessado e Jaques nos contou que tal dispositivo tinha sido aplicado, na segunda guerra mundial, em holofotes usados para iluminar o céu e revelar aviões inimigos. Para fins bem mais pacíficos, embora também emocionantes, eram os geradores da luz nos projetores de cinema contemporâneos.

A partir dali eles não pararam mais de falar no assunto, conversa que culminou com a instalação “Apogeu do claro-escuro pós Caravaggio”. Esta instalação ele a levou a público, junto com outros trabalhos, numa exposição realizada na sala Milliet do Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro. As luzes do arco voltaico, que eram produzidas com um antigo projetor de cinema, vazavam pelas janelas da sala que, no nível da rua, ficavam rentes ao chão, produzindo lá o efeito que ele pretendera obter em Curitiba – e que aqui permaneceu inédito.

Naquela mesma exposição, no Rio – uma individual com que Schwanke havia sido premiado num Salão Paranaense – ele mostrava dois outros trabalhos: uma coleção de quadros – “Desenhos de 1978-80” – e a instalação “A casa (de Julio Cortázar) tomada por desenhos que não deram certo”.  De algum modo acho que também testemunhei a pré-história de A casa tomada… pois,  numa tarde, em sua antiga casa no bairro São Francisco, tirei do lixo, debaixo de sua bancada de trabalho, um desenho seu, num pedacinho de papel.  Vejam a seguir do que se trata:

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Eu lhe disse: Como é que você joga fora uma coisinha tão linda? Ele riu e disse que era um simples exercício para testar um pincel. Perguntei se podia ficar com o desenho e, concordando ele, se poderia assiná-lo. Ele me atendeu o pedido, divertindo-se, e falou: se você soubesse a quantidade de coisas assim – e nem sempre tão singelas – que eu jogo fora…

Falou-nos, então, de um dia em que ele, sucessivamente, desenhava e desprezava o desenho, amassando o papel e jogando o trabalho fora – porque não gostava do resultado: eram desenhos que não davam certo, para ele, naquele dia. Quando deu por si, a sala estava tomada por papel amassado, cercando-o por todos os lados. Ele foi, então, atravessado por uma idéia: A casa de Bernarda Alba, tomada por desenhos que não deram certo. Pareceu-lhe uma instalação interessante.

Ele acabou migrando da casa de García Lorca para a de Julio Cortázar, quando concretizou esta idéia na Milliet. Não conversamos sobre isso, mas compreendo que, como no conto de Cortázar, a ocupação da casa é o elemento central da trama, esta referência mostrou-se mais adequada à experiência da sala tomada naquele dia em que, por alguma improvável dificuldade técnica, ou por uma possível ambição desmedida, os desenhos “não davam certo”.

Também na exposição da Milliet, a instalação “A casa tomada…” era a idéia central, impactante, a peça que ocupava lugar no espaço (literal e metaforicamente). Embora ele tenha comentado que a luz do arco produzia um jogo de claro e escuro nas dobraduras do papel, absorvendo a “Casa tomada…” para dentro do conceito do “Apogeu…”, também é verdade que “A casa tomada…” era a instalação “forte” da exposição: tinha concretude e permanência, enquanto que o “Apogeu…” só era visto quando o arco era ligado, o que era intermitente, pois não se podia mantê-lo em funcionamento o tempo todo.

Finalizando, deixamos o registro de que, para Schwanke, tudo – inclusive ruínas e dejetos inservíveis – era matéria prima para o exercício de sua incansável e sempre florescente imaginação criadora.

Gostaríamos, também, de deixar um retrato falado de sua bela figura: austero, porém simpático; ensimesmado, porém com um o-tempo-todo-iminente sorriso de criança; elegante no seu despojamento; hospitaleiro e capaz de preparar o melhor café solúvel espumante de nossas vidas.

Curitiba, 13 de Julho de 2016

Antonio Jaques da Silva & Vera Lúcia de Oliveira e Silva,

amigos de um homem memorável.

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