a casa tomada(de Julio Cortázar) por desenhos que não deram certo

[...] com sua peculiar imaginação criativa e sua inteligência visual. Schwanke realizou trabalhos que iriam servir de matriz para outros artistas hoje muito mais conhecidos e badalados, como quando ocupou parte do seu espaço na Galeria Sérgio Milliet com papéis amassados (“com papéis que não deram certo”, como ele diria), para citar apenas um exemplo.

(“Schwanke” (excerto). Frederico de Marais. 1989.)

Esse trabalho consiste em uma instalação formada por 500 metros de papel branco, amassado, de forma a ocupar boa parte do espaço de exposição.
Um casal de amigos seus, Antonio Jaques da Silva e Vera Lucia de Oliveira da Silva, em depoimento escrito a partir de conversas que tiveram com Schwanke sobre essa exposição, relatam que o artista contou que, durante a execução dos desenhos que compuseram a segunda parte da mostra (Desenhos de 1978/80), se viu em meio a diversos papéis amassados e jogados ao chão. E, a partir dessa situação, surgiu o título “A casa (de Bernarda Alba) por desenhos que não deram certo”.Nessa montagem, cada personagem possuía a sua própria cadeira, como se aquele fosse o seu lugar dentro da casa, e como se as formas das cadeiras materializassem as personalidades fortes das mulheres que lá viviam.

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Foto da montagem de “A Casa de Bernarda Alba”, realizada pelo Grupo Momento de Teatro. 1975. Teatro Guaíra. Curitiba. Paraná. Acervo: Departamento Estadual de Arquivo Público do Paraná.

Assim sendo, à princípio, a ideia inicial para a instalação estava relacionada com à referida peça de teatro, de Federico García Lorca, cuja montagem realizada pelo Grupo Momento de Teatro (do qual Schwanke já fizera parte), ele assistira em 1975, no Teatro Guaíra. Pode-se constatar então que, embora a instalação e o conjunto de desenhos tratem-se de trabalhos distintos, eles foram concebido a partir das mesmas fontes, na discussão de questões que se cruzam, já que na série de desenhos a qual executava naquele momento, substituía personagens retratadas em pinturas por artistas de diferentes períodos, por poltronas e cadeiras, cuja inspiração, segundo seu amigo Paulo Schroeder,estava na montagem daquela peça a qual assistiram juntos.

Fotos: Giovanna Fiamoncini

Mais para frente, assim conforme relatam Jaques e Vera, Schwanke substitui Federico Garcia Loca pelo realismo fantástico do conto “A casa tomada”, de Julio Cortázar. O conto, trata da história de um casal de irmãos que herda a casa dos pais. Aos poucos, uma coisa vai tomando conta da casa, cômodo por cômodo, de forma que os irmãos não tem outra alternativa senão sair da casa, agora toda tomada, deixando para traz tudo aquilo que tinham. Assim, eles acabam por trancar a porta, jogar as chaves no bueiro, e irem embora. A instalação realizada por Schwanke, chegava a atrapalhar o espaço de circulação do público, que já não tinha muito espaço de recuo para observar os trabalhos, de forma a estabelecer com os mesmos uma relação de contemplação mais intimista. E a exposição de Schwanke estava literalmente tomada, não apenas por metros e metros de papel em branco amassado, mas também pela luz, tanto por aquela projetada pelo arco voltaico abrigado no projetor de cinema, como pela discussão provocada pelos desenhos dispostos nas paredes.