Montagem de 1999

REVENDO A CASA TOMADA..., TÃO ATUAL COMO EM 80

Nadja de Carvalho Lamas*
Dentre as várias mostras de artes visuais no Brasil, o Salão Nacional Victor Meirelles tem se destacado pela sua crescente qualidade e pelo empenho de seus organizadores no sentido de que seja representativo da produção artística contemporânea nacional.
Propondo uma ampliação nos objetivos do certame, o VI Salão Nacional Victor Meirelles, no ano de 1998, vem abrir espaço a uma sala especial, com curadoria específica, de um artista catarinense cuja produção artística está referendada pela crítica nacional. Para estrear esta mudança, que deve se repetir nas próximas edições, a curadoria-geral do Salão optou pelo joinvilense Luiza Henrique Schwanke.
Falecido precocemente em 1992 – aos 41 anos e no auge de sua carreira – Schwanke foi um artista de atuação e de poética intensas. Seu percurso artístico foi marcado por uma incessante busca da contemporaneidade, através da leitura e recriação da história da arte, pela qual procura estabelecer pontes instigantes, e às vezes desconcertantes, entre correntes da arte atual. Dentre os destaques de sua premiada trajetória, podem ser citadas a participação na 21ª Bienal Internacional de São Paulo (pág. 50) e na Bienal Brasil Século XX. Nesta última, Schwanke estava entre os 26 artistas, escolhidos pelo crítico Agnaldo Farias, para o segmento A atualidade: de 1980 aos nossos dias.
Ao se pensar numa sala especial, principalmente de um artista já falecido, costuma-se imaginar uma retrospectiva, ou ainda uma ampla seleção de obras de diferentes fases de sua produção. Entretanto, esta não é a proposta da curadoria, tendo em vista a característica do Salão Nacional Victor Meirelles e pelo foto de que o próprio Museu de Santa Catarina já realizou, em 1994, uma grande retrospectiva do legado de Schwanke, com destaque às suas fases mais conhecidas.
Buscando aprofundar e ampliar o reconhecimento do público e da crítica nacional à ampla contribuição de Luiza Henrique Schwanke às artes plásticas brasileiras, esta curadoria optou por expor uma fase ainda pouco estudada, mas nem por isso de menor importância, de sua instigante obra. A proposta é de representar uma exposição individual, tal como foi reunida pelo próprio artista em novembro de 1980, na Galeria Sérgio Milliet, da FUNARTE, no Rio de Janeiro. Sua presença naquele espaço foi resultado de um prêmio conquistado no Salão Paranaense de 1979, com a série de desenhos criada a partir da obra São Sebastião, de Antonello de Messina. Tenta-se, portanto, reconstruir aquela exposição, a partir das fotos e dos slides constantes do espólio do artista, procurando manter a máxima fidelidade.
Em sua montagem original, a exposição foi apresentada somente naquela data, muito embora alguns dos desenhos que dela fizeram parte tenham sido expostos ao público isolados do conjunto, principalmente nas retrospectivas após sua morte. O título indica as três propostas presentes na exposição: a casa tomada (de Julio Cortázar) por desenhos que não deram certo; desenhos de 1978 a 1980; apogeu do claro-escuro pós-caravaggio.
A primeira proposta a ser abordada é uma instalação que ocupou o centro e quase a maior parte do espaço da Galeria, tomado por metros e metros (cerca de quinhentos) de papel branco amassado. Eles parecem uma avalanche que cresce, como que tomando todo o espaço. Esse aglomerado simboliza os inúmeros desenhos que não deram certo, como a dizer que os desenhos que estão na parede são os resultados positivos das pesquisas e mais pesquisas. Que arte, também, é trabalho de investigação criteriosa e profunda. Há uma nítida intenção de revisitar a história da arte, de conceituar determinados pontos e que nem tudo, efetivamente, dá certo. Há, também, os desacertos na caminhada.
A instalação foi inspirada no conto do escritor argentino Júlio Cortázar, A Casa Tomada, no qual um casal de irmãos de meia idade, habitam um casarão antigo. São pessoas de posse e de hábitos bastante arraigados. De repente uma parte da casa é tomada e eles se instalam naquela que restou. Lamentam as coisas que ficaram, mas se adaptam à nova realidade. Com o tempo a outra parte também é invadida, eles saem, trancam a porta e se dão conta de que tudo o que tinham ficou pra trás. Viram as costas, jogam a chave no bueiro e se vão...
Os desenhos que não deram certo são pouco isto. Eles vão invadindo cada vez mais, porque são tantas as tentativas, até que tomam todo o espaço... A associação com Cortázar e com o realismo fantástico é muito feliz. Este gênero literário caracteriza-se pela entrada do mistério na cena da vida real, colocando-nos diante do inexplicável. Tudorov (1975), coloca que “o fantástico implica pois na integração do leitos no mundo das personagens; define-se pela percepção ambígua que tem o próprio leitos dos acontecimentos narrados... A hesitação do leitos é a primeira condição do fantástico”.

No canto, o leitor tem, com intensidade, a sensação de invasão e depois, é como se um vazio nele se instalasse. A casa está tomada, está cheia, mas os donos já não estão mais ali. A incerteza gerada leva a perguntar se realmente houve invasão, se ouve, por quem? Por quê? Causa um certo estranhamento, pois o fantástico explora o espaço interior; tem uma estreita relação com a imaginação, a angústia de viver e a esperança de salvação (SCHNEIDER, apud Tudorov). Leia o texto completo.