O apogeu do claro-escuro pós-caravaggio

Esse trabalho nasceu diretamente do interesse de Schwanke pela luz, e foi a primeira vez em que esse elemento foi por ele utilizada de forma concreta.

Conforme escreve,

O caso claro-escuro virou uma obsessão. Qualquer coisa era forma, via em tudo a forma da sombra tornando o volume uma forma. Comecei a disparar flashes e fotografar os ângulos da casa. As sombras nos contornos das portas e móveis da antiga casa de Curitiba se tornavam grossos traços pretos horizontais e verticais, como os de Mondrian (não buscava com isso uma justificação do neoplasticismo na natureza ou cotidiano, mas lembrava Mondrian devido a forma que a sombra de esquadrias de portas tomavam na foto (Schwanke, sem data, apêndice 3).

Embora o interesse de Schwanke pela luz tenha seu ponto de partida na obra de Caravaggio, sua pesquisa alçou voos de maneira a relacionar elementos do cotidiano, a partir de uma olhar sensível, e na discussão da luz, com trabalhos de diferentes artistas, a exemplo de Mondrian, cuja influência aparece em sua produção em diferentes momentos. A partir de seus escritos, percebe-se que o artista atualizava as discussões acerca da luz, as quais encontrava na história da arte, a partir de situações vividas e de coisas que via e percebia em seu entorno. Vera e Jaques escrevem sobre o momento em que surgiu a ideia para o “Apogeu do claro-escuro pós-Caravaggio”,

Uma noite, vínhamos de carro, não sei de onde, e passamos pela rua onde hoje está o Shopping Mueller, em Curitiba. Naquele então, a quadra inteira estava ocupada pelas ruínas da antiga Fundição Mueller, já desativada e, para nossa tristeza, demolida. Era um belo prédio e sua demolição fora melancólica, para nós. Não para ele, que via ali o cenário ideal para uma instalação luminosa. Declarou em voz alta seu desejo de fazer funcionar, bem no centro da quadra, escondido em meio ao entulho, um dispositivo capaz de emitir raios luminosos, intensos e fugazes como relâmpagos, que assombrassem os eventuais passantes.
(Leia o texto completo)

A partir daí, contam que Jaques e Schwanke não conversavam mais sobre outra coisa. E, mais tarde, Schwanke relata em um texto de que forma, com a ajuda de Jaques, conseguiu materializar a sua ideia ,

Um amigo engenheiro-eletrônico então me falou que com o arco voltaico eu teria uma permanência daqueles traços pretos por visão direta, pois o feixe de luz do arco voltaico era contínuo. Um técnico de cinema de Curitiba me deu um velho aparelho de cinema o arco voltaico (esse mesmo processo era usado na 2ª Grande Guerra para iluminar aviões para a artilharia. Depois de queimar dezenas de fusíveis e levar uma dezena de sustos (pelo barulho), outro amigo conseguiu com um arame fazer uma resistência enrolada num pedaço de telha eternit, que permitiu o aparelho funcionar. Um mês depois não resisti (depois de rever toda a casa, o jardim, o sereno, as gotas de chuva no pinheiro, deixar os vizinhos em sobressalto, resolvi colocar aquele claro-escuro na Sérgio Milliet (com arame e eternit engaiolados) numa exposição que tinha ganho com o prêmio do Salão Paranaense. Com o intuito “meio jocoso”, resolvi dar o título da obra de “O Apogeu do claro-escuro pós-Caravaggio”. No Rio continuou a mesma história das janelas gradeadas com bronze trabalhado, do porão do Museu Nacional de Belas Artes, jorrava Araújo Porto Alegre um poderoso faixo de luz. Enchia de gente agachada na rua para ver o que era (Veja o texto completo).

A galeria, que ficava em um porão, tinha uma parede cheia de janelas, de forma que Schwanke tirou proveito de uma delas fazendo com que a luz do projetor vazasse para a rua, na criação do desejado faixo de luz, do qual, infelizmente, não se tem registro algum.

               O projetor ficava voltado para os papéis da instalação “A casa tomada (de Júlio Cortazár) por desenhos que não dera, certo”, de forma que a luz incidida sobre os papéis, acabava por gerar sombras desenhadas nos próprios papéis, no chão e na parede do espaço de exposição. Assim, já em 1980, Schwanke provocava no espectador a vivência concreta do claro-escuro de Caravaggio, na materialização da luz e da sombra, o que aparecerá novamente em sua produção só em 1990.

 

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