Trinta é melhor do que um – 12a semana de museus | Plataforma Educativa

Trinta é melhor do que um – 12a semana de museus

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12ª Semana Nacional de Museus – Ibram

Trinta é melhor do que um

 

Esta mostra, organizada especialmente e exclusivamente para a galeria do MAC Schwanke virtual em ocasião da 12ª Semana Nacional de Museus promovida pelo Ibram, inaugura a reforma do site do MAC. O objetivo dessa reestruturação, financiada pelo Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura – SIMDEC,é aproximar o público da produção de Luiz Henrique Schwanke bem como do museu, que, embora ainda não tenha sede física pronta, já atua enquanto tal há mais de dez anos. Para tal, foi então realizado um recorte a partir de imagens digitalizadas de trabalhos significativos pertencentes às décadas de 1970, 1980 e 1990, de maneira que o espectador possa familiarizar-se com diferentes momentos de sua produção e assim perceber a diversidade de comportamentos e meios, bem como a complexidade de seu pensamento.

É notável que, de uma forma geral, na produção de Schwanke a intensificação da qualidade se dá na relação com a quantidade, seja esta explorada pelo expressivo número de trabalhos e pela constante repetição e acumulação de um mesmo objeto, ou pela grande intensidade de luz presente em seus últimos projetos.

Embora a sua produção em artes visuais mostre-se extremamente numerosa, somando mais de cinco mil, e diversificada, já que formada por desenhos, pinturas, esculturas, gravuras, objetos, instalações e livros de artista, é possível estabelecer diferentes fios condutores no trânsito entre as inúmeras seriações, sendo a referência à história da arte um dos mais marcantes. E Schwanke não faz uso da mesma como uma justificativa para a sua produção, mas como um meio de estabelecer a discussão de diferentes elementos e comportamentos utilizados por artistas em momentos distintos do passado, o que se dá na articulação com o tempo presente, discutido muitas vezes pelo viés da ironia e da crítica. E os trabalhos integrantes dessa exposição compõem diferentes seriações que não somente referenciam a história da arte, mas que têm em comum a quantidade, entendida aqui como um elemento estético.

Nos anos setenta, a sua produção, de forma dialogada com o circuito artístico nacional desse período, é marcada pelo conceitualismo fundamentado na discussão de diferentes trabalhos já consagrados pela história da arte, dando forma a seriações exercitadas pela apropriação, pela transformação e pela ressignificação do passado, mas também pela constante e numerosa repetição, seja de elementos ou de gestos. Dentre essas, encontra-se a série Decalcomania, a partir da qual o artista apropria-se de decalques na organização de desenhos dialogados com a produção de Andy Warhol, mas também dá forma a séries, tanto em decalques como em pintura, nas quais segue a lógica da construção literária de sonetos. Já na Série Sinistra, de 1977,assim como na série dos Revisitamentos[1], de 1979, percebe-se o interesse do artista não somente pela história da arte, mas pela repetição de ações e gestos realizados com a mão. Na primeira, Schwanke apropria-se de pinturas realizadas por artistas consagrados, tira cópia heliográfica da imagem invertida e reforça com grafite a figura da mão em ação na composição. Por se tratar da inversão da imagem, a mão direita da obra apropriada torna-se a esquerda no trabalho de Schwanke, conforme indicado pelo título da série. Já nos revisitamentos, o artista preocupa-se não só com a figura em ação, mas também com aquelas às quais as ações referem-se. As figuras que agem são substituídas por dedos, já as submissas às ações, por poltronas. Cabe observar que já nesse conjunto de trabalhos é evidenciado o interesse de Schwanke pela luz, seja como um elemento plástico explorado nos desenhos e nas pinturas, seja na escolha das obras apropriadas, pertencentes ao Renascimento, ao Barroco, ao Impressionismo e à Pop Art.

Na década de 1980, ainda em diálogo com o contexto nacional, a pintura gestual e figurativa toma corpo em seu trabalho dando forma a inúmeras e numerosas séries também pautadas na repetição. Dentre elas destaca-se a produção conhecida como linguarudos ou perfis. Trata-se de figuras humanas de perfil, boa parte delas com a língua para fora, produzidas uma a uma, a maioria organizada em séries, por meio das quais o artista dá feição neoexpressionista ao comportamento de repetição e seriação da Pop Art americana, mais especificamente, de Andy Warhol. Contudo, em Schwanke a repetição assume o efeito inverso de Warhol, já que as figuras são diferentes umas das outras de forma que o olhar do público é incitado a observar uma a uma para a apreensão do todo. Esses perfis consistem no conjunto de trabalhos mais numeroso do artista. Conforme escreve em carta de 1985 endereçada para Harry Laus, esse ano pintei muito, muito mesmo, mais de cinco mil. Ainda nessa década, Schwanke dá forma às Mancúspias, seres híbridos do imaginário de Julio Cortázar que, conforme relatado no conto Cefaléia, gostam de luz. É interessante notar que aqui, e mais uma vez, a presença da luz repete-se, não só explicitamente por meio da plasticidade, mas implicitamente, na escolha da figuras. Dentre as diversas pinturas dessa série ressalta-se a Mancúspia que possui um dedo, elemento este muito explorado na década anterior.

Em diálogo com o Minimalismo, mas também com o Neoplasticismo de Mondrian, e na apropriação de baldes e de bacias, objetos simples de uso cotidiano, Schwanke subverte a ideia de monumento, dando forma às colunas de plástico, localizadas entre a arquitetura e a não-arquitetura. Embora o primeiro trabalho dessa natureza tenha sido realizado em 1989, nas ruas de Joinville, em uma exposição promovida pelo Museu de Arte de Joinville – MAJ, já em 1976, em ocasião de um concurso realizado por uma empresa da cidade, Schwanke demostra seu interesse pelo tridimensional. O projeto do trabalho proposto foi premiado, mas nunca realizado e consistia em 120 colunas de aço inoxidável, na antecipação das colunas de objetos de plástico construídas pela primeira vez mais de uma década depois, na referida exposição promovida pelo MAJ. Por meio dessa mostra, Schwanke executa a primeira intervenção urbana realizada em Joinville, que consistiu em colunas nas bacias inseridas em três pontos distintos da cidade. No jardim do terminal rodoviário, o artista instalou nove colunas seriadas totalizando 180 bacias brancas, na ocupação de 21 metros de comprimento por 5 metros de altura. No cruzamento da Avenida Beira Rio com a rua Nove de Março foram instaladas sete colunas, quantificando 231 baldes brancos e vermelhos, atingindo quatro metros de altura. Já na Praça da Bandeira foram colocadas 237 bacias vermelhas, distribuídas em nove colunas, alcançando 21 metros de comprimento por 4 metros de altura. Assim como a Coluna sem fim (1937-38) de Brancusi, as colunas de Schwanke conduzem o espectador a olhar para cima, tal como um dedo que aponta, gesto este tão explorado pelo artista nos anos 1970.

Conforme relata em um de seus escritos, a partir do momento em que teve contato com a luz na história da arte, o caso claro-escuro virou uma obsessão. Qualquer coisa era forma, via em tudo a forma da sombra tornando o volume uma forma. Em 1980, como prêmio recebido no Salão Paranaense, Schwanke realiza uma exposição individual na Galeria Sergio Milliet, em Curitiba. Tal exposição é resultante de diversas apropriações, tanto da história da arte, da literatura, como de objetos. A começar pelo título da mostra A casa tomada por desenhos que não deram certo, apropriado do conto A casa tomada (1946) de Julio Cortázar. No conto, o escritor narra a história de um casal de irmãos que herda uma casa dos pais a qual, pouco a pouco, vai sendo tomada por uma coisa de forma que terminam por deixar a casa tomada por completo e vão embora. A partir do conto, Schwanke realiza a instalação Apogeu claro-escuro pós Caravaggio, seu primeiro trabalho com luz. Utilizando-se de um antigo projetor de cinema cujo sistema de funcionamento é o de arco voltaico, projeta uma grande quantidade luz sobre metros de papel em branco amassado. E, assim, como a “coisa” do conto de Cortázar, o papel, mas principalmente a luz, tomam conta da galeria. Em 1990, ou seja, dez anos mais tarde, Schwanke volta a se apropriar do elemento luz na concepção de quatro projetos, dos quais apenas dois foram realizados em vida: o Paralelepípedo de luz (1990) e Antinomia ou cubo de luz (1991). O primeiro consiste em uma parede de luz formada por vinte refletores de 300 watts cada, intercalados por espetos de churrasco e sustentados por uma estrutura de ferro. O conjunto dos refletores projeta tamanha luminosidade, que chega a ofuscar a vista do receptor provocando, conforme suas palavras, a perda da noção de distância. A ideia era a de que a luz fosse vivenciada diretamente, o que acabava por gerar medo e insegurança, tanto pela cegueira momentânea, como pelos espetos de churrasco que, nesse trabalho, fazem o mesmo papel do dedo explorado nos anos 1970, e da língua nos Perfis da década de 1980. Schwanke resolveu, então, aprisionar toda aquela luz com três paredes de tecido na revelação de um volume o qual, devido ao formato, apelidou de paralelepípedo. Já por meio do Cubo de Luz, construído apenas uma vez, na 21ª Bienal Internacional de São Paulo (1991), estabelece um diálogo com o concretismo latino americano, na discussão do Cubocor (1960)de Aloísio Carvão. O trabalho consiste em um cubo de três metros quadrados, composto por 45 lâmpadas de 2 mil Watts de multivapores metálicos voltadas para dentro, na projeção de 90 mil watts de luz. Schwanke construiu um cubo virtual, uma escultura de luz que é impossível de ser contemplada já que provoca uma cegueira momentânea, de forma que o espectador vivencia concretamente a experiência do claro-escuro. Ao trabalhar a forma do cubo com estrutura aparente, e tendo a paisagem como suporte, Schwanke mantém diálogo com o Minimalismo, e tal como Dan Flavin e Donald Judd, utiliza-se do objeto por si mesmo, é a grande intensidade de luz que fala. Segundo suas palavras,trinta é melhor que um. E isso complica. Não se pode olhar 160 mil watts de luz de vapor metálico de estádios confinados num cubo de três metros de lado. (SCHWANKE, s/d).

Entre a unidade e o ilimitado, Schwanke adotou a quantidade, em diferentes aspectos, como um procedimento na concepção de sua obra. Não produziu trabalhos isolados, mas séries deles, dando forma a um conjunto numeroso, complexo e articulado, de maneira que só é possível entender a profundidade de seu pensamento na análise do todo. No entanto, esse todo ainda não pode ser apreendido na medida em que parte dele encontra-se distribuída por acervos públicos e particulares, tal como peças faltantes de um grande quebra-cabeças, que aos poucos vem completando-se, mas que se um dia completo, dificilmente será esgotado.

Alena Rizi Marmo Jahn

Curadora

[1] Termo utilizado por Nadja de Carvalho Lamas em sua tese de doutorado “Revisitação da obra de Luiz Henrique Schwanke”, 2005, para referir-se à série de trabalhos em que Schwanke apropria-se de, transforma e ressignifica obras já consagradas na história da arte.

Decalcomania

Luz
Antinomia ou Cubo de Luz

Apogeu

Paralelepípedo de luz

Mancúspias

Perfis – Sem título

Perfis – Sem título

Perfis – Sem título

Revisitamentos

Sinistra

A casa Tomada

Cefaléia

Carta à Harry Laus

Escritos – Citações 1, 2 e 3